Mais a visão se aprofunda,
mais estrelas se percebem,
na escuridão...

15 de novembro de 2019

Perfumes


Festa de aniversário.
Muitos convidados, parentes, amigos dos parentes.

Permanecemos com os familiares mais próximos, evitando circular, o que as demais pessoas fazem incessantemente e com grande desenvoltura.

Meu olfato canino sofre com as atmosferas miasmáticas trazidas pelos "transeuntes" que se aproximam e se afastam de nós.

Um vem nos cumprimentar, rescendendo a madeira embebida em álcool, qual tonel de aguardente recém aberto.

Outra vem envolta em algo inidentificável, fortíssimo, impregnando mucosas nasais, garganta e pulmões de suas vítimas.

Um outro espalha aroma de musk pelo ambiente, qual cervo almiscareiro com a glândula secretora eviscerada.

Uma outra banhou-se em uma substância com altíssima velocidade de efusão, milagre da química, contaminando todo o local assim que ela chega.

E mais outro se aproxima, exalando uma "brisa marítima", que remete de imediato ao piso de um píer em dia de chuva.

E mais outra passa, difundindo essência floral enjoativa e sufocante, decerto extraída de flores transgênicas assassinas.

Uma conflagração de eflúvios egoísticos, autocêntricos, deseducados.

Não creio que os seus olfatos e paladares, certamente entorpecidos, consigam apreciar os doces, salgados e bebidas ali servidos.

Finalmente, de volta ao lar.
Arrependimento, cefaléia, soro fisiológico nos olhos e narinas.

Se as pessoas pretendessem apenas se sentir bem com os próprios perfumes, usariam produtos suaves e com raio de ação limitado.

Entretanto, apelam para essas armas químicas pervasivas, invasivas, perdurantes, talvez porque necessitem ser notadas, ostentando fragrâncias de griffes caríssimas, condizentes com seus toscos conceitos de valor.

Resta-me o progressivo isolamento, não somente para evitar reações orgânicas adversas, mas também por aversão a inalar tais "sofisticadas fragrâncias", em última instância, nada menos do que substâncias químicas emanando dos corpos de pessoas estranhas.
  
Tema: Abril 2009 - Texto: Setembro 2019

27 de outubro de 2019

Etilização


Ah! Aqueles comerciais...

Certamente respaldados por especialistas em neurolinguística, efeitos especiais, computação gráfica etc.

Estimulando o consumo, pela visão de pessoas:

·   Exibindo expressões alegremente aparvalhadas.

·   Atuando de forma pretensamente sensual.

·   Dizendo coisas supostamente inteligentes.

·   Imersas em cenários por vezes nonsense, eventualmente fazendo coisas "sofisticadas", "espertas", mirabolantes, idiotas, ou também nonsense.

·   Movimentando-se de maneiras inusitadas, simulacros de transtornos obsessivo-compulsivos, polineurites e ataxias de diversos graus.

Fidelizando "clientes", sob os bate-estacas de expressões pseudointeligentes, autoelogiosas, autoindulgentes, sugestivas, convidativas.

Esperando que você se torne dependente de álcool, mas dizendo escrupulosamente:

·   Beba com moderação.
·   Aprecie com moderação.
·   Beba com sabedoria.


Devem estar certos os criadores dessa ciência dedicada a entorpecer multidões:

·   A julgar pelos onipresentes e privilegiados pontos de exibição desses produtos, em todos os estabelecimentos em que a sua venda seja (ou não) permitida.

·   A julgar pelos carrinhos de supermercados, usualmente acomodando bebidas de variados tipos, ou, principalmente, lotados de feixes de latas de cerveja, amiúde acompanhados por mastodônticas peças de carne, pacotes de sal grosso e de carvão, sob os olhos ansiosos, sedentos e famintos de seus compradores.


Então, não deixe de se enturmar...

Sinta-se mais leve, mais alegre, mais desinibido.
Deixe de ser o "você real".
Torne-se "outro", um você em estado alterado.

Afinal, coração, alma, capacidades e sentidos perfeitos, recebidos de Deus, não lhe bastam para atingir leveza, alegria e desinibição espontâneas.

Convide amigos para visitá-lo.
Permita-lhes trazer as suas próprias bebidas.

Convide-se para visitá-los.
Leve as suas próprias bebidas.

Confraternizem, até que visitantes e visitados deixem de ser quem eram quando decidiram se encontrar, redundando naquele lastimável conclave de "outros" em estados alterados, sem conversas seqüentes, das quais sequer se lembrariam no dia seguinte, caso ocorressem.

Pouco importam a memória prejudicada, as deficiências cognitivas e limitações físicas que se acumulam inexoravelmente.

Pouco importam os "chatos" que se afastam gradualmente, por não suportarem despender vida, tempo e neurônios, em atividades e falatórios sem conteúdo.

Importa, sim, a expectativa pelos eventos das próximas semanas.
Se possível, mais de um evento por semana.

Você quer isto para si mesmo?


Bebedores contumazes...

·   Jamais admitem a dependência química, pois todos acreditam "beber apenas socialmente".

·   Geralmente, talvez inconscientemente, sentem-se incomodados, ou mesmo inferiorizados, em face da inteireza de pessoas responsavelmente sóbrias, estigmatizando-as, segregando-as, agindo subliminarmente para convencê-las de que "precisam" aderir aos hábitos da confraria, para serem aceitas como "pessoas normais".

·   Terminam por estabelecer vínculos mais amistosos e numerosos com outros bebedores contumazes, em detrimento até dos vínculos com familiares avessos à confraria.

·   Depreciam a própria imagem nas redes sociais, "curtindo" e compartilhando apologias e escárnios alusivos ao consumo de álcool.

·   Subestimam os seus interlocutores, ao considerá-los incapazes de perceber as suas frágeis tentativas de disfarçar e corrigir lapsos, irritando aqueles que esperavam interagir com alguém em estado normal.

·   Repetem ad nauseam estórias e "causos" já contados inúmeras vezes às mesmas pessoas.

·   Ao se desinibirem etilicamente, podem vir a manifestar facetas socialmente inibidas de suas personalidades, mostrando-se insensíveis, debochados, desrespeitosos, grosseiros, encrenqueiros, agressivos, inconseqüentes.

·   Via de regra, perturbam a paz dos seus vizinhos.

·   Tornam-se objetos de chacota para aqueles que fingem lhes dedicar apreço, e também presas fáceis para aproveitadores.

·   Sempre supõem "estar bem" para realizar quaisquer atividades, mesmo aquelas que possam causar danos a si mesmos e a outros seres vivos.

·   Infelizmente, contam com a complacência calhorda, ainda prevalente nos âmbitos social e jurídico.


Este texto...

Encerra a esperança de suscitar alguma reflexão séria.

Não foi escrito com a intenção de agradar.

Janeiro - Setembro 2019


12 de outubro de 2019

Tem certeza de que não conhece?


Sempre a mesma empresa, procurando pela mesma pessoa.
Incontáveis chamadas provenientes de um número telefônico "acobertado" pela operadora de telefonia.


Enésima chamada

Bom dia.
Gostaria de falar com Fílipi Erônimus.

Bom dia.
Por favor, qual o nome da sua empresa?

Somos a Xyz Recuperação de Créditos, senhor.

Vocês ligam a toda hora, procurando por essa pessoa.
Não há ninguém aqui com esse nome.

Por favor, retire o meu número telefônico do seu sistema.

E o senhor não conhece Fílipi Erônimus?

(Ignorou o meu pedido e prosseguiu com o script.)

Como eu disse, não há ninguém aqui com esse nome.

Entendo...

(Será?)

Mas, o senhor tem certeza que não conhece?  (sic)

Sim.

E ninguém na sua casa conhece Fílipi Erônimus?

Sim.

Então, alguém na sua casa conhece Fílipi Erônimus!

Amigo, você perguntou se ninguém conhece o sujeito.

Então, o meu "sim" significa que ninguém conhece essa pessoa.

Entendeu?

Entendo...

(Ele parece meio desconfiado...)

Por favor, retire o meu número telefônico do seu sistema.

Vou estar retirando esse número do nosso sistema.
Pedimos desculpas pelo incômodo.
Tenha um bom dia.

Um bom dia para você também.


Chamada n + 3

Boa tarde.
Posso falar com Fílipi Erônimus?

Não há ninguém aqui com esse nome.

Por favor, retire o meu número telefônico do seu sistema.

E o senhor conhece Fílipi Erônimus?

(Ele não abandona o script.)

Você é da Xyz Recuperação de Créditos, certo?

Sim, senhor.

Vocês prometeram retirar o meu número telefônico do seu sistema.

Mas, o senhor conhe...

Retire o meu número telefônico do seu sistema!

Sim, senhor.
Vou estar retirando esse número do nosso sistema.

Agradeço!


 Chamada n + 5

Boa noite.
Posso falar com o senhor Fílipi Erônimus?

Amigo, são 20:30h.

O senhor Fílipi Erônimus se encontra?

Ele "se encontra" (pausa) em algum lugar do planeta.
Mas, não aqui.

Como assim, senhor?

Não há ninguém aqui com esse nome.

Por favor, retire o meu número telefônico do seu sistema.

E o senhor não conhece Fílipi Erônimus?

(Miserável!)

Não, não o conheço e ninguém aqui o conhece.

Retire o meu número telefônico do seu sistema.

Entendo, senhor...
Vou estar retirando esse número do nosso sistema.

Agradeço.


Chamada n + 9

Bom dia.
Posso falar com Fílipi Erônimus?

Amigo, são 08:05h da manhã.

Aqui não há nenhum Fílipi Erônimus.

Retire o meu número telefônico do seu sistema.

E o senhor não conhece Fílipi Erônimus?

(Tudo de novo...)

Vocês já ligaram tantas vezes procurando por essa criatura, que quase já o conheço.

Não entendi, senhor.

Fílipi Erônimus é um maledetto que caloteou bancos, financeiras, empresas de telefonia, farmácias, hospitais, padarias, quitandas, bicheiros, prostitutas...

Calma, senhor!

Estou calmo, meu jovem.

Esse miserável escolheu um número telefônico qualquer, infelizmente o meu, para enganar a todos, inclusive a sua empresa.

Vocês são a Xyz Recuperação de Créditos, certo?

Sim, senhor.

Então, definitivamente, retire o meu número telefônico do seu sistema.

Certo, senhor.
Vou estar retirando esse número do nosso sistema.

Agradeço.


 Chamada n + 13

Boa tarde.
Posso falar com Fílipi Erônimus?

Poderá, quando você tiver o número correto dele.

Senhor, isto é sério.
Posso falar com Fílipi Erônimus?

(Hoje, ele parece um pouco irritado.)

Rapaz, isto é sério.
Você ligou para o número errado.

Por favor, retire o meu número telefônico do seu sistema.

E o senhor conhece Fílipi Erônimus?

Deduza isto da resposta anterior.

O senhor não conhece Fílipi Erônimus?

Deduza isto das duas respostas anteriores.

Retire o meu número telefônico do seu sistema.

E ninguém na sua casa conhece Fílipi Erônimus?

(Crápula!)

Vocês são a Xyz Recuperação de Créditos, certo?

Retire o meu número telefônico do seu sistema!

Sim, senhor.
Vou estar retirando esse número do nosso sistema.

Obrigado.


Chamada n + 17

Bom dia.
Posso falar com Fílipi Erônimus?

Não há ninguém aqui com esse nome.

Por favor, retire o meu número telefônico do seu sistema.

E o senhor não conhece Fílipi Erônimus?

Você é da Xyz Recuperação de Créditos, certo?

Sim, senhor.
O senhor conhece Fílipi Erônimus?

Conheço, sim.
Mas, não vou dizer onde ele se encontra.
Ele me paga uma mensalidade para protegê-lo dos credores.

Retire o meu número telefônico do seu sistema.

Senhor, estou apenas fazendo o meu trabalho.
O senhor conhece Fílipi Erônimus?

Retire o meu número telefônico do seu maldito sistema!

Sim, senhor.
Vou estar retirando esse número do nosso sistema.

Faça mesmo isso.


Chamada n + 23

Boa tarde.
O senhor Fílipi Erônimus está?

Ele está tomando café.

Pode me dizer o nome da sua empresa?

Somos a Xyz Recuperação de Créditos, senhor.

Espere um pouco.

Fílipi, a Xyz quer falar com você.

(pausa)

Ok, Fílipi. Eu digo a eles.

(pausa)

Amigo, o Fílipi não quer atender vocês.

Senhor, eu preciso falar com Fílipi Erônimus!
Temos uma excelente oportunidade de quitação para ele e...

(Ele acreditou...)

Filho.
Falando sério, aqui não há Fílipi Erônimus.

Retire o meu número telefônico do seu sistema.

Então, o senhor não conhece Fílipi Erônimus?

Já respondi mil vezes a essa pergunta.

Retire o meu número telefônico do seu sistema.

Certo, senhor.
Vou estar retirando esse número do nosso sistema.

Quero muito acreditar nisso.


Chamada n + 25

Bom dia.
A senhora Marta Erônimus se encontra, por favor?

Não, não se encontra.

O senhor poderia me dizer quando ela volta?

Poderia, se eu soubesse.
Mas, ela não mora aqui.

Você é da Xyz Recuperação de Créditos, certo?

Sim, senhor.
O senhor poderia informar o telefone atual da senhora Marta Erônimus?

Poderia, se eu soubesse.

Mas, o senhor conhece Marta Erônimus.

(Disse isto em tom conclusivo.)

Tenho uma vaga idéia de quem seja.

Ah! O senhor conhece a senhora Marta Erônimus?

(Ele se animou!)

Ela deve ser parente de um tal Fílipi Erônimus.

Você conhece Fílipi Erônimus?
Alguém na sua casa conhece Fílipi Erônimus?

Senhor... Não entendi...

Essa família de caloteiros escolheu o meu número telefônico para enganar credores.

Retire o meu número telefônico do seu sistema.

Então, o senhor não conhece Marta Erônimus?

(Agora, muito cuidado com esta resposta.)

Não! Não conheço Marta Erônimus.

Retire o meu número telefônico do seu sistema.

Sim, senhor.
Vou estar retirando esse número do nosso sistema.

Agradeço muito.


Chamada n + 29

Bom dia.
O senhor Fílipi Erônimus está?

Está o quê?

Como assim, senhor?

Você quer saber se ele está o quê?

Ele está nesse endereço, senhor?

Como assim, "neste endereço"?

Então, você conhece o meu endereço?

Vocês estão me perseguindo?

Vocês estão me espionando?

Você é da Xyz Recuperação de Créditos?

Sou sim, senhor.
O senhor Fílipi Erônimus está nesse telefone?

"Deixa ver"...

(pausa)

No momento, sou eu quem está usando o telefone.

É o senhor Fílipi Erônimus que está falando? (sic)

Bzzzzzzzzz...

Sim!
Fílipi falando.
Sou a personalidade oculta do dono do telefone.

O senhor está brincando?

Bzzzzzzzzz...

Voltei.
O Fílipi já se foi.
O que você estava dizendo?

Senhor...

Bzzzzzzzzz...

Túúú... túúú... túúú... túúú...


Chamada n + 35

Bom dia.
Posso falar com Fílipi Erônimus?

Bzzzzzzzzz...

Túúú... túúú... túúú... túúú...



Setembro 2019

25 de setembro de 2019

Melhor idade


Civismo e respeito

Você passa a vida dedicando respeito a tudo e a todos, pautado unicamente em seus princípios morais, éticos, cívicos, religiosos até.

Nem faz questão de utilizar diversos direitos preferenciais, guardando para si o inconformismo em face de criaturas que se sentem espertas ao usurpá-los (exceto quando o fazem em detrimento de pessoas que realmente precisem deles).

Mesmo assim, nas suas atividades cotidianas, passa a topar com criaturas-espertas, freqüentemente ansiosas por criar problemas com quem elas "pensam que podem".

Você sabe que elas "ainda não podem".
Sabe que ainda tem o poder de trucidar, por palavras ou de fato, quaisquer criaturas-espertas.

Mas, como nunca agiu assim com quaisquer seres vivos, você, a cada novo evento, recorre aos seus princípios e autocontrole, evitando o confronto.

E a criatura-esperta vai embora incólume e satisfeita, supondo que você nada fez "porque não poderia fazer", e não "porque não quis fazer".


Previdência e espoliação

Você trabalha "de carteira assinada", ininterruptamente, desde os 13 anos de idade.

Evolui profissionalmente, atingindo condição que lhe "permite" pagar a previdência social (segundo o salário máximo de contribuição) e ser assaltado pela alíquota máxima do IRPF.

Você espera nem precisar da aposentadoria.
Mas, perto dos 60, conclui que precisará dela.

Então, descobre que um congresso podre formulou (e um gramcista miserável sancionou) a lei 9.876/99, alterando as regras do jogo durante o jogo, lesando sem escrúpulos quem já pagava a previdência há décadas.

Por uma simples penada desse enviado dos infernos, a sua aposentadoria (debochadamente tratada por "benefício") passou a ser calculada com base nas 180 últimas contribuições, desconsiderando-se outras centenas delas, de valores elevados, pagas na fase mais bem remunerada de sua vida profissional.

Analisando a possibilidade de fazer prevalecerem os seus direitos, você decide "deixar quieto", em face de um sistema judiciário preponderantemente conivente com o estado espoliador, e pela certeza de uma excruciante espera por decisão judicial.

Assim, para garantir uma vida digna, resta prosseguir trabalhando e agradecendo a Deus, que o abençoou com saúde e múltiplas competências.


Ninhos escassos

Você reside em uma casa, em uma metrópole.

Aproximando-se a época de mudar para um apartamento, descobre que praticamente não existem mais os imóveis "apenas e simplesmente" confortáveis, agradáveis e seguros.

Na quase totalidade dos seus empreendimentos, as construtoras descobriram que, independendo dos seus perfis econômico-sociais e etários, todas as pessoas desejam arcar com custos condominiais afeitos a "comodidades indispensáveis", tais como salões de festas, áreas de lazer, piscinas, playgrounds, quadras poliesportivas, academias, saunas, salões de jogos, espaços gourmet e o que mais vierem a inventar.

Então, você desiste da idéia e passa a considerar a sua casa com mais carinho ainda, persistindo em cuidar da sua preservação pelo maior tempo possível.


Aridez progressiva

O mundo lhe parece mais árido.

Encolheu o círculo de pessoas com quem você apreciava conversar, trocar idéias reciprocamente enriquecedoras.

Parte dessas pessoas desapareceu.
Parte se modificou, mergulhou em estados alterados, perdeu aptidão ou interesse, abandonou contatos genuinamente produtivos.

E esse seu círculo não se renovou, principalmente devido ao empobrecimento endêmico da comunicação, agora baseada em contatos curtos, informações rápida e massivamente compartilhadas, tristemente mal aproveitadas, mal rastreáveis, mal lastreadas.


Comunicação verbal

Surgem dificuldades para entender o que dizem inúmeras pessoas com quem você tem de interagir.

Não porque esteja ficando surdo ou lerdo.

Na verdade, a sua mente não decodifica bem o que você ouve, porque "os seus ouvidos padecem de problemas de dicção".

De nada valem a fluência em outros idiomas, o domínio perfeito do seu idioma nativo, diante da crescente ubiqüidade de pronúncias destrambelhadas, entonações descabidas, ênfases deslocadas, rajadas disparadas por quem parece haver negligenciado a dose diária de clonazepan.

Ninguém mais se preocupa com ser bem compreendido.
Vale mais encontrar uma identidade verbal inconfundível, por mais inepta que pareça.

Então, a cada nova situação, ou você não dá importância à mensagem mal emitida, ou passa por surdo e lerdo, pedindo à pessoa que repita a frase (e rezando para que o faça de maneira compreensível).


Ruídos

Diminui ainda mais a sua tolerância a ruídos.

E aumentam ainda mais a quantidade e os tipos de fontes de ruídos que se aproximam de você, ou das quais precise se aproximar para atender às suas atividades normais.

Pessoas falando ao celular, como se não precisassem dele para ser ouvidas.

Pessoas "conversando" frente a frente, como se estivessem à distância de uma quadra.

Locutores de lojas e supermercados, correndo o risco de serem empalados com os seus microfones.

Veículos desregulados, adulterados, mal cuidados, extremamente ruidosos, incitando o seu desejo de possuir uma bazuca.

Imbecis, passando lentamente com os seus "carros incrementados", ouvindo "música" medíocre, num volume que faz vibrarem as janelas da sua casa, trazendo à sua mente a oração em que pede a Deus que os torne surdos e portadores de graves seqüelas neurológicas.


Acidente ambulante

Você se torna autor reincidente de crimes culposos, dentro do próprio lar.

Coisas menores, que às vezes caem das mãos porque você supôs havê-las segurado direito.

Coisas maiores, que às vezes tombam ou desabam sozinhas, porque você supôs havê-las posicionado corretamente, ou porque foram projetadas por designers que prezam o bonitinho acima da funcionalidade.

Objetos do seu ambiente, que decidem sair dos seus lugares habituais, obstruir o seu caminho, provocar esbarrões, tropeções, palavrões.

Aparelhos e utensílios anteriormente bem comportados, que passam a não funcionar direito (ou até sucumbem) em suas mãos, talvez ressentidos pelo excesso de força, ou pela falta de jeito ou de paciência.


Reserva ambiental

Gradualmente, você se transforma em área de preservação da biodiversidade.

À parte de distúrbios que possam debilitar o seu sistema imunológico, várias "espécies ameaçadas" tentarão vencê-lo e conquistar sítios em seu organismo.

Seres inocentes, como bactérias, cocos, vírus e congêneres.

A sua própria microbiota poderá se insurgir, causando desarranjos de toda sorte.


System auto-shut off

Começam a ocorrer deficiências e imprecisões, em atividades que sempre transcorreram perfeitamente.

Um dos principais culpados, o seu arcabouço musculoesquelético, possivelmente o obrigará também a abandonar hobbies tais como tocar um instrumento musical, manusear ferramentas com destreza, ou o que seja.

Os seus reflexos ainda perfeitos poderão não compensar a sua visão não mais tão perfeita, de modo que o cuidado terá de ser redobrado em quase tudo que fizer.

Em reverência às suas antigas façanhas atléticas, você procura manter-se ainda como um ser em movimento.


Ciclicamente...

Perseverando em lapidar a mente plena, as palavras assertivas, as ações conseqüentes, a emoção transmutada em aprendizado, o milenário espírito viajante, você percebe que, enfim, toda a sua essência caminha lentamente, rumo a diluir-se novamente no tempo.


Janeiro - Setembro 2019


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