Mais a visão se aprofunda,
mais estrelas se percebem,
na escuridão...

25 de dezembro de 2018

Muitos cíclicos anos novos


A vocês...

Que, maquiavélicos,
travestidos de benfeitores,
criaram dramáticas urgências,
atraindo a presa-salvadora,
iludida por promessas de cura e atenção,
cativada pelo convívio harmonioso,
encenado.

Que, repetidamente e sem escrúpulos,
a espoliaram recorrendo à compaixão e ao embuste,
para atender a necessidades e superfluidades.

Que, satisfeita a sanha materialista,
mal agradecidos em essência,
agrediram de forma torpe,
estigmatizaram,
injuriaram,
difamaram,
escarneceram.

Que pisotearam os sonhos que estimularam sonhar.

Que, mesmo caídas as máscaras,
mentiram e ainda mentem,
repisando estórias sonsamente autoindulgentes,
buscando disseminar imagem à qual nunca fizeram jus,
como se idiotas crédulos fossem todos os que suportem ouvi-los.

Que desprezam Ética, Moral e Compaixão,
enquanto, despudoradamente,
pregam e cobram a Humildade
que não possuem.

Que manterão seus procederes nefastos,
enquanto houver sangue circulando,
enquanto o vil metal lhes bastar,
até que só restem as 30 moedas de prata,
que, estas sim, farão por merecer.

Eu lhes desejo muitos cíclicos anos novos,
tempo suficiente para aqui pagar
pelo que aqui fizeram e ainda fazem
e para que Deus, piedosamente,
lhes conceda a capacidade de refletir 
profundamente.

Dedicado a três seres abjetos.
Minhas entranhas não me permitiram encerrar 2018 sem registrar isto.

dezembro.2018

24 de dezembro de 2018

Gato


Poucos me conhecem,
poucos me vêem.
Muitos me amam.
Muitos me odeiam
e perseguem.

Sou tudo, ou nada,
o foco da atenção,
ou a sombra silenciosa.

Dou sorte, dou azar?
Nada sei dessas coisas!

Nada peço, preciso, ou quero.
Sou somente o que me coube ser.

Equilibrado, preciso,
confiante, seguro,
autossuficiente,
independente.

Sentidos alertas,
perfeição em movimento,
sou apenas um gato.


(década de 80)

13 de dezembro de 2018

Atriz e modelo (drama)


Com todo o respeito a todas as mulheres.
Valorizar o "ser" e o conteúdo,
mais do que o "parecer" e o invólucro.
Aplica-se, mutatis mutandis, ao gênero oposto.


Certo dia, num verdadeiro insight, ela concluiu:

- Ninguém mais do que eu, tão linda e antenada, com este look descolado e tudo em cima, merece circular no mundo fashion e midiático, pelo resto da vida.

Decidiu, assim, preparar-se para participar de um reality show, qualquer que fosse, chance de ouro para alguém tão talentosa:

- Vou fazer um plano detalhado, para repaginar minha beleza e dar mais um up no visual.

Planejamento em mãos, apressou-se a executá-lo metodicamente.

Etapa inicial...

Escolhida a clínica de cirurgia plástica, alto padrão, desfiou os seus "queros" aos doutores quase estupefatos:

- Quero próteses de mamas bem volumosas.

- Quero próteses nos glúteos, lipoaspiração e lipoescultura.

- E quero também remover as costelas flutuantes, para afinar a cintura.

E assim foi...

Etapa intermediária...

Recuperada do esquartejamento, fez alongamento de cabelos e os tingiu na cor da moda, adotou lentes de contato azuis (estilo Husky Siberiano), sobrancelhas naturalmente redesenhadas (estilo kabuki-latino), submeteu-se a diversos procedimentos estéticos, incluindo preenchimento de lábios, botox e clareamento dental (branco-fluorescente). 

Etapa final...

Já havia despendido o que podia e o que não podia.

Mesmo endividada, deu seguimento ao plano, matriculando-se numa academia:

- Vou malhar muito, porque quero ser também musa fitness.

- Para resultados bem rápidos, tomo até hormônios e anabolizantes.

Mergulhou em exercícios, toneladas de proteínas, suplementos diversos, hormônios e anabolizantes.

E assim foi...

Resultados...

Um pouco diferentes dos esperados, vieram acompanhados de timbre vocal mais grave e gutural, leve alargamento mandibular, quase imperceptível pronunciamento da testa.

Paciência...

Não desanimou, cuidou de manter e aprimorar a original receita de muita malhação e dieta saudável.

Enfim, chegou àquele padrão estético altamente televisivo: perfil de prateleira assimétrica, com suporte vertebral em s-lordótico, mega-seios na parte alta, mega-glúteos na parte média, tudo suportado por pernas hipermusculosas e encimado por expressão facial de traços marcantemente padronizados.

A chance...

Finalmente, inscrições abertas para um reality show.

Tentou, mas, dentre tantas concorrentes "similares", não foi selecionada.
Tanto esforço para nada.

Por conta da frustração, sofreu sérios problemas psicológicos:

- Tive depressão e síndrome de stress pós-traumático.

Reposicionamento...

Passado algum tempo, já mais tranqüila, retomou a atividade em suas redes sociais, tornou-se influenciadora digital e, principalmente, apresenta-se como atriz e modelo, presença VIP, em diversos eventos.

- Hoje, enquanto pessoa empoderada e ligada nos acontecimentos sociais, vou atendendo meus clientes e recolhendo material para escrever um livro.

O livro, este sim, será um sucesso editorial...


Texto relacionado: Seres inexistentes



set. - out. 2018

5 de dezembro de 2018

Precisam de rehab


Ah, essas pessoas...

Consideram importantíssimo ter imensa quantidade de amigos e seguidores virtuais.

Tornaram-se intensamente dependentes de dopamina e serotonina movidas a comentários, likes e correlatos, obtidos em incontáveis vídeos, fotos e opiniões, postados em suas redes sociais, grupos de mensagens etc., onde imergem numa vida virtual (possivelmente) melhor do que a real.

Precisam continuamente dessa aprovação social virtual, acreditando que os autores de cada reação positiva tenham avaliado atentamente e reverenciado tudo aquilo que postaram, inclusive sobre suas atividades mais cotidianas, particulares e banais.

Assim, também precisam incessantemente conceder atenção imediata aos seus contatos virtuais, de modo que julgam absurdo priorizar pessoas reais bem à sua frente, ou dar atenção exclusiva a quem quer que seja.

Fizeram-se "ligeiramente dispersivas", não suportando mais do que uns poucos minutos de leitura que exija algum esforço neuronal.

Inadvertidamente autocêntricas, perderam a empatia para com os "problemas dos outros", monopolizando as raras conversas mais demoradas, pouco importando se as almas dos interlocutores já estiverem implorando para sair dos corpos.


Não desista delas!
Essas pessoas só precisam de rehab.


Novembro.2018