Mais a visão se aprofunda,
mais estrelas se percebem,
na escuridão...

16 de dezembro de 2014

Mente in vitro


De tanto, para si mesma,
perder e perder novamente,
esta mente acatou novas mentes,
perceptivas parceiras mentes,
vigilantes do que pensa negativa mente.

Seriam plenas mentes?
Simplesmente não-mentes?
Elementos estruturais, somente?
Freudianos, Jungianos?
Ego? Superego? Alterego?

Ora qual!
Não lhes permito tais arrogâncias.
Sou eu a mente real.

Mas, qual mente
é realmente
a real mente?

Certamente,
é certa mente
habitada in vivo
por tantas mentes congregadas,
desvairando a semear de mentes,
claro, sementes.

setembro - novembro 2014
©Alfredo Cyrino / Indigo Virgo®

15 de dezembro de 2014

Não bastaram


Rabiscos de que tentei desenhar um ser.
Dificuldades convertidas em capacidades.
Determinação confiante no fluir do tempo,
na resolução dos erros e injustiças, na utopia.

Não-omissão, em tudo o que me trouxe a vida.
Semear, cultivar, compartilhar uns poucos dons.
Aplicar tempo, dedicação, mãos, coração e mente,
a serenizar dores, angústias, carências, tristezas alheias.
Acreditar, peito e alma, em ser assim.

Esperar coisa alguma, senão atravessar o oceano do tempo,
quietamente, ao largo das rochas da iniqüidade humana,
imponderáveis, ocultas pela bruma.

Soçobrar...
Clamores que ninguém quis ouvir.
Feridas arruinadas que ninguém quis ver.
Estruturas colapsadas, ignoradas.
Ferozes embates de anjos e demônios de mim.

Neuro-cataclismo.
Desvalidos rumos transtornados, já desnorteados.

Criaturas mal-amadas, oportunistas, pisoteando milenar pergaminho,
dissociando fibras, esmaecendo expressão, forma, sentidos, controle,
raciocínios, abrangências, complexidades, conclusões.
Suas reais essências humanas, expostas em palavras, intenções,
indisfarçável maldade, ameaças, deboche,  menosprezo,
indeléveis injúrias celeradas.

Não bastaram, ainda sou
dominador, irado inconformismo kamikaze,
contraditórios aprendizados em conflito infindo,
dores, enganos, derrotas, irremissíveis culpas,
implacável memória de incontáveis vidas e mortes,
luz abrindo passagens por entre meus muros de vidro,
estilhaçados, mas sempre reconstruídos e reconstruídos,
a proteger escombros desta cidadela,
eternamente a desafiar as trevas.

maio - junho 2014
©Alfredo Cyrino / Indigo Virgo®

14 de dezembro de 2014

De Agility e comprimidos à Síndrome da China


Resfriado forte.
Meio de madrugada de sexta-feira, acordo morto de sede.
Levanto-me da cama, dirijo-me à cozinha.

O Rivotril parece haver transformado o corredor em um Duto de Agility.

Infelizmente, as paredes não são macias, não sou um Border Collie, e não existe treinador indicando o caminho.

Bebo dois copos de água, mas a sede persiste.
Deixo à mão um copo de Coca-Cola gelada, para beber dentro de alguns minutos.

Pego um blister contendo 6 "comprimidos antigripais".
Aparência de novo, mas não enxergo a data de expiração.

Passo novamente pelo Duto de Agility.
Memorizei as curvas que não estão lá (mas parecem estar).
Volto com os óculos para leitura.

Nenhuma data de validade.
!#*&%*!!!
Vamos em frente...

Pelos três princípios ativos estampados no blister, considero que suas dosagens não deveriam ser expressas em miligramas, mas em megatons.

Por precaução, decido iniciar com ½ comprimido.

Posiciono cuidadosamente o dito cujo num fracionador recém adquirido na Drogasil.
Um apertão moderado e... nada.
Aperto firmemente.
O treco de acrílico se fecha com um estalo, parece ter sido destruído.

Procuro por um comprimido cortado precisamente ao meio, mas o vejo esfacelado, no receptáculo do fracionador.

Aparelhinho idiota!
Deveria ter continuado a partir comprimidos com as mãos, como sempre fiz.

Observo os fragmentos minúsculos.
Talvez isto seja um "sinal" de que deva fazer um teste com apenas ¼ de drágea.

Escolho um fragmento que me parece corresponder a ¼, mas não consigo pegá-lo, porque meus dedos não cabem no receptáculo.

Tento, sem sucesso, usar uma colher de café para capturar aquele pedacinho milimetricamente escolhido.

A paciência se foi...

Despejo tudo em uma colher de sopa e noto que, além dos fragmentos, boa quantidade do medicamento foi reduzida a pó.

Irritado...

Desisto do teste e coloco na boca todo o conteúdo da colher de sopa.
Dane-se!

Percebo imediatamente que aquilo é amargo, muito amargo!
O que mais usaram na fórmula? Quinino? Cicuta?

Preciso urgentemente de algum líquido.
Meu providencial copo de Coca-Cola está bem à mão.

Um pequeno gole...
Forma-se uma espumarada fervilhante em minha boca.

Muito irritado...

Teimosamente, engulo o veneno espumante, porque essa m... de comprimido é meu!

O sabor amargo não se dissipa.
Bebo o restante da Coca-cola.
Meu estômago parece haver-se transformado num reator colapsando, rumo à Síndrome da China.

Não consigo deixar de grunhir uns palavrões.

Tuco, um dos nossos cães, me olha com ar espantado e se recolhe, talvez suspeitando que minha vacinação não esteja em dia.

Odeio resfriados.
Odeio "antigripais".
Odeio fracionadores de comprimidos.
Odeio misturas que espumam.

Agora, preciso de um antiácido.
Felizmente, Mylanta é líquido.

01-março-2014
©Alfredo Cyrino / Indigo Virgo®

13 de dezembro de 2014

Resolvendo tudo através dos emails fantásticos


Para resolver facilmente inúmeros problemas desta minha vida, decidi finalmente apartar minha desconfiança inata, simplesmente dando crédito a pessoas, entidades, poderes públicos etc., que diariamente me enviam dezenas de emails absolutamente bem intencionados.

Assim sendo, finalmente decidi...

Utilizar os créditos tributários de todas as Notas Fiscais Eletrônicas emitidas em meu nome, por empresas das quais jamais ouvi falar.

Ir buscar todos os produtos que não comprei, já há tanto disponíveis para retirada em diversas agências dos Correios. Preparei uma lista com todos os códigos de rastreamento recebidos.

Resgatar todos os prêmios e "faturas zero" que ganhei por usar meu cartão de crédito em programas de recompensas aos quais jamais aderi, até porque ignorava existirem.

Usar os códigos recebidos para "reativar" meus pontos e milhas Smiles, Frowns etc., obtidos com cartões de crédito que nunca possuí.

Transferir para uma conta de investimentos os milhares créditos (não solicitados) feitos em minha conta corrente (cujos dados nunca divulguei), evidentemente conferindo todos os valores através dos comprovantes já recebidos.

Utilizar uma ínfima parte desses valores para quitar todos os títulos protestados em meu nome (por transações que jamais realizei), em cada um dos cartórios que me "notificaram por correio eletrônico".

- Contratar advogados que me defendam em dezenas de "processos investigatórios" aos quais fui chamado a depor, através de "intimações eletrônicas" recebidas da Policia Federal, da SRF, do STF, do TJSP, do TDPQP.

- Encerrar as contas correntes (que nem sabia possuir) em todos os bancos que informaram que meu "dispositivo de segurança" (token ou similar) expirou, precisa ser sincronizado, substituído, descartado, pisoteado, ou o que seja.

- Pagar todas as multas de trânsito recebidas do DER, DETRAN, CIRETRAN, ATROVERAN, por infrações ocorridas em vias pelas quais jamais transitei, mas garantidamente comprovadas por "notificações eletrônicas" contendo fotos quase microscópicas do "meu carro". Nem as ampliei para conferir, pois confio plenamente nessas notificações.

- Cuidar de reabilitar meu titulo de eleitor, cancelado por "irregularidade eleitoral" em diversos estados nos quais jamais residi ou votei, tudo segundo fiáveis "notificações eletrônicas" recebidas do TSE.

Atender aos pedidos daquelas mais de 100 viúvas de políticos, banqueiros, comerciantes, industriais, da África, da Ásia, do Oriente Médio, e ajudá-las a retirar de seus países os tais 20 bilhões de dólares falcatruados e deixados pelos seus falecidos. Todas me prometeram generosa participação, entre 20% e 30% do valor a ser trambicado para uma conta que abrirão em meu nome, bastando que lhes forneça todos os meus dados (todos). Muito bom isso!

Aproveitar algumas das centenas de ofertas de vidência grátis, para que me orientem quanto aos melhores modos de gastar toda a dinheirama de que irei me apossar.

Sair para correr mundo, não sem antes aprender Alemão, Holandês, Espanhol, Inglês, Chinês e Japonês, em um daqueles miraculosos cursos de idiomas com duração de 10 dias.
  
novembro 2014
©Alfredo Cyrino / Indigo Virgo®

12 de dezembro de 2014

Só eu sei


Do que me move,
do que me estanca,
maltrata,
do que me mata.

Do que sempre fui,
das mil vidas
bem vividas,
mal vividas,
abandonadas,
interrompidas.

Das irreais curas interiores,
das esperanças e farpas
guardadas no peito,
petrificadas em suas dores,
sepultando sonhos e flores.

Dos remorsos, tantas culpas
merecidas, assumidas,
imerecidas, atribuídas.

Dos que omitiram seu livre arbítrio,
maldizendo um, pelos erros de todos.

Da compaixão
lentamente ocupando moradas vazias
que o perdão jamais habitou em mim,
incapaz de retirar adagas cravadas
nos corações dos que estão,
dos que partiram.

Da urdidura do espaço-tempo,
seus infinitos sítios cósmicos,
seus universos paralelos,
onde incontáveis, idênticos eus,
tristemente incomunicáveis,
jamais conseguirão ser,
sem ser assim.

janeiro - março 2014
©Alfredo Cyrino / Indigo Virgo®

11 de dezembro de 2014

Rima sem pé nem cabeça


Peleja, rasteja,
vai não se sabe aonde,
num verso viceja,
noutro se esconde,
essências despreza, eufonias evoca,
não encontra o que se lhe pareça,
rima pobre, sem pé nem cabeça,
rima, riminha, riminhoca.

novembro - 2014
©Alfredo Cyrino / Indigo Virgo®

10 de dezembro de 2014

Conversa sobre a Kate e o Tico


Primeiro dia do ano.
Manhã chuvosa.
Levo a Vivi e o Tuco ao jardim.

Cumprem a sua rotina matinal,
fitando as nuvens, sonolentos,
parecendo procurar o sol que não está.

Agem de modo diferente dos outros dias.
Continuam olhando em torno, como que indagando.
Sentam-se à minha frente, com olhos telepáticos
que me trazem de pronto a ausência do Tico e da Kate.

Por alguns instantes, converso com eles,
sem palavras, represando tristeza e saudades,
apenas pensando no que talvez já saibam,
e, talvez, para que saibam que eu sei.

Digo-lhes que passagens de ano
não têm significado para a vida além do tempo,
não fecham ou abrem portas no nosso tempo,
não deixam para trás aqueles com quem partilhamos vida terrena,
não apagam as marcas, as características, os ensinamentos
gravados em nós pelos que partiram.

Permanecemos em silêncio, ouvindo a chuva,
comungando da mesma, imensa, alma canina.

03 jan 2012 - 06h53m
©Alfredo Cyrino / Indigo Virgo®

9 de dezembro de 2014

Quando...


Não existem interferências
capazes de amenizar ou mais agravar
recorrências de toda uma vida,
o que não foi justo nem decente,
o que me fez doente.

Recebida a ajuda possível,
obsessores afastados, encaminhados,
remediados os males, superados,
resta ainda angustiado, alucinado eu,
assombrando a si mesmo,
ad aeternum.

fevereiro 2014
©Alfredo Cyrino / Indigo Virgo®

8 de dezembro de 2014

Andrajos por velas


Nave de tantos utópicos ideais.
Teus andrajos por velas, irreais.
No convés roto, teu guia jaz.
Jornada sem norte, sem cais.
Ah, nave sem morte, sem paz.
Eivado de arpões teu coração,
nave à deriva, na imensidão
do jamais.

janeiro 2014
©Alfredo Cyrino / Indigo Virgo®

7 de dezembro de 2014

De todo…


De todo lo que quise
y no me fue dado ser,
podría y no lo quise,
procuré sin encontrar,
atiné sin esperar,
pretendía y no lo realicé,
causé sin pretender.

De todo tuve,
del bien y del mal,
del merecido y no recibido,
del inmerecido y sobrevenido,
del furioso clamor no comprendido.

De todos los que
amé, apacigüé, amparé, herí,
no me aceptaron como así nací,
(mientras sólo deseé comprensión
y siquiera la hallé en mi corazón)
simplemente, sin adiós, partiré,
alma entristecida,
no la serené.

Diciembre 2013 - Enero 2014
©Alfredo Cyrino / Indigo Virgo®

6 de dezembro de 2014

O que me prende?


Fragilizam-se os ossos,
abalam-se os nervos,
cansam-se os músculos,
embaçam-se os olhos,
desatina o pensamento.
Mas, coração e alma
tudo guardam,
tudo levam,
tudo trazem,
sempre.

Quando, o perdão que não aprendi?
Quando, a catarse, a redenção?
Quando a paz?

janeiro - 2014
©Alfredo Cyrino / Indigo Virgo®

5 de dezembro de 2014

Quarto vazio


Janela semi-aberta, luz vespertina.
Espaço arejado, quase vazio.

Alguns objetos ainda sobre um móvel.
Despertador, telefone, pêndulo de cristal, aliança,
pequena imagem metálica de Santo Expedito.

Remédios, agora inúteis, organizados numa caixa.

Documentos, óculos, chaves, celular, pendrives,
tudo na mesma puída sacola de cartão.

Na cama sem lençóis, serenas,
as últimas roupas repousam,
esperando pelos dias felizes que lhes prometi.

Minha imaterial presença percebendo
que teve de partir sem cumprir promessa.

dezembro 2012
©Alfredo Cyrino / Indigo Virgo®

2 de dezembro de 2014

Retratações


Vomitam recalques, frustrações, venenos.
Dizem, fazem, seguem em frente, esquecem.

Causam danos definitivos,
mesmo a quem jamais as agrediu,
a quem sempre e somente lhes fez bem,
a quem procurou apenas quietude,
quando em suas presenças nefandas.

Jamais refletem sobre suas aleivosias.
Jamais voltam às indecências proferidas.

Imersas em autoindulgência,
seus atos e palavras são sempre inocentes.
Os atingidos são intensos demais,
anormais.

Ninguém
reconsidera coisa alguma. 
Importa sentir-se melhor, desrecalcar.

Lema da humanidade:
"Danem-se os prejudicados."

Perdidos momentos para retratações, 
ainda procuro em mim
perdão, conserto, paz.

janeiro 2014
©Alfredo Cyrino / Indigo Virgo®

1 de dezembro de 2014

Barro


Tantas vezes,
o barro torpe deste invólucro
flagelei.

Trincado, desfigurado,
não quebrou para voltar à terra,
não libertou da prisão
o regente-guardião
do direito de errar,
do direito de não existir.

dezembro 2013 - janeiro 2014
©Alfredo Cyrino / Indigo Virgo®

30 de novembro de 2014

Acender velas


Nunca se espera,
nunca se crê ou supõe.
Jamais imaginamos
acender velas por ti.

Os olhos e as mãos o fazem,
o coração não crê,
o pensamento se confunde
em realidade surreal.

Tecidos, pertences, uma foto,
todos os teus lugares aos poucos reunidos
em pequeno relicário.

E ali ficamos, angustiados,
diante de cada tênue chama que se extingue,
como se diante de ti ainda estivéssemos,
devotados a manter acesa uma vida.

30.09.2007 - 01h45 - rev. agosto.2013

29 de novembro de 2014

A Paz no asfalto...


Repete-se a cena.
Novamente, um sábado.
Anteriormente, pela manhã, meia quadra acima.
Desta vez, final de tarde, em frente à minha casa.  

Retornando após uma saída rápida.
Lá estava ela, enorme pomba rajada, quase branca, morta, atropelada bem em frente à nossa calçada.

Como pode alguém atropelar um animal, em uma avenida totalmente sinalizada para 40 km/h, com lombadas a cada 50 metros? 
Se inevitável, por que vão embora, sem mais?

Parei o carro na calçada, tirei do porta-malas algumas coisas de que poderia precisar.

Enquanto uso um saco plástico adequado para remover e dar um fim digno àquela pequena "nave abandonada", Jussára sinaliza aos demais veículos, muitos. Um após outro, buzinam e desviam de quem perturba a sua tarde de sábado.

Três "pessoas" jovens, passando pela calçada, observam, dizem algo em voz baixa. Depois... gargalhadas.

Respiro fundo, retomo minha oração mental.

Ninguém se importa com a Paz, morta no asfalto.

Ocorrido em 07.05.2011

6 de maio de 2014

Contemplei



O tudo originar-se do nada.
Escuridão, explosão, expansão, ondas gravitacionais.
Partículas precursoras, elementos já inexistentes.

Nuvens incomensuráveis, em sempiterna pulsação.
Berçários e cemitérios de estrelas.
Forças em luta nos corações nucleares e dentro de mim.
Anãs brancas, gigantes vermelhas, quasares, pulsares.

Singularidades no espaço-tempo,
passagens dimensionais, limiares de eventos.
Astros dilacerados, 
adentrando portais em que a luz desaparece.
Galáxias em colisão, 
construindo e destruindo mundos em evolução.

Supernovas arremessando luz e escombros ao Universo, 
apenas um, de infinitos Universos.

Massas coronais esfarrapadas,
línguas fulgurantes ejetadas a esmo.

Corpos planetários em formação,
repelidos, atraídos, capturados,
orbitando, semeados, colonizados,
deformados, devastados.

Planetas sobreviventes, furiosos,
cuspindo magma e fumos,
erigindo relevos sob trevas milenares.
Placas tectônicas colidindo,
fendas e fragmentos colossais.
Oceanos convulsos procurando espaços.
Gélidas fossas abissais.

Meteoros, cometas, rastros de fogo e gelo,
impactos, hecatombes.

Moléculas vitais aspergidas ao acaso,
variantes adeninas, citosinas, guaninas, timinas,
combinando-se em ácidos nucléicos indecifráveis,
de efêmeros, insólitos seres ancestrais.

Períodos glaciais, períodos abrasadores,
intermináveis.

Espécies surgindo, partindo, transmutando-se.
Vida e morte associadas 
em cadeias de inexorável, inocente crueldade.

Humanóides lentamente aprumados, caminhando,
proliferando, dominando, atemorizando, assombrando.

Embate, crueldade de divindades mitológicas,
regendo esplendor e decadência de civilizações antiqüíssimas,
em míseros átimos da escala de tempo universal.

Arrogância faraônica, crente, embalsamada.

Hordas parvas, cretinas, fanáticas, impiedosas,
partícipes degeneradas, manobradas por veredas oblíquas
de vergonhosas histórias.

Fluxos piroclásticos, petrificadas Pompéias e Herculanos.

As mãos lavadas de milhões de Pilatos.
As mãos trespassadas do Cristo crucificado.
As lágrimas de Maria.

Séculos de ignorância
preservada a comodismo, crendice, obscuridade, medo.

Expedições, invasões, conquistas, espoliações, 
travestidas em descobrimentos.
Catequeses genocidas, movidas a fétidos interesses.

Tantos Pizarros e Impérios Incas saqueados.
Tantos Atahualpas batizados e assassinados,
confiantes num Sol de Ressurreição que os abandonou.

Gerações indígenas enganadas, escravizadas, usurpadas,
banhadas em Santo Hidrargirium,
envenenadas por metais de vil valor.

Continentes assolados,
penúria de corpos, mentes, corações e almas.

As Centúrias, as marés, as ondas,
os ventos, as dunas em movimento,
o sol calcinante, os céus azuis,
as nuvens, as tormentas, os dilúvios,
as guerras.

Cogumelos nucleares estratégicos, 
decididos, ofuscantes, carbonizando vidas.

Egoísmo, egocentrismo, cinismo, hipocrisia, ganância, mesquinhez,
autoindulgência, incompreensão, desfaçatez, ignomínia,
deboche, inveja, rejeição, palavras ferinas, ódios,
pragas, perdões, falsidade, sinceridade,
mentira, verdade.

Multidões malignas, embrutecidas, preponderantes,
disseminando barbárie, sincretismo de terra devastada.

Predestinados, iluminados por inspiração e conhecimento,
justos, compadecidos, dedicados, altruístas, idealistas utópicos,
perdidos num mundo conduzido pela inépcia,
ultrajados pela mediocridade ungida por esperteza.

Miséria, fragilidade, calamidades, deficiências, epidemias.

Ciência realimentando ciência, em ritmo exponencial,
resvalando nas fronteiras da Criação,
deslindando soluções e curas
devidas a tantos jamais reconhecidos.

Seres construtivos e destrutivos,
proativos, inertes e omissos,
essências densas e translúcidas,
seus pactos, sucessos, fracassos,
suas mágoas, tragédias, passagens,
suas evoluções e retrocessos,
seus dolorosos aprendizados.

Seres Índigo, Cristal, preludiando novas eras,
mesmo combalidos por almas tenebrosas.

Dante Alighieri e Virgílio desalentados.
Nove Círculos do Inferno, alegoria sobrepujada
pelos tormentos reais da humanidade.

Ainda contemplando,
agregando memórias, percepção, consciência,
até o momento de regressar ao nada, 
a originar tudo.

fev - mai 2014