Mais a visão se aprofunda,
mais estrelas se percebem,
na escuridão...

3 de outubro de 2013

Alma numa pedra


Alma numa pedra, consciente,
tudo percebendo, tudo retendo,
cruzando Universo, bilhões de anos,
curvaturas do espaço-tempo,
anomalias gravitacionais,
buracos negros, facho azul infinito,
dutos intergalácticos, quásares,
nebulosas, grupos globulares,
cemitérios e berçários estelares,
jornada estupefaciente, ser contrito,
a esta galáxia chegando, enfim,
predestinada colisão,
do planeta infeliz coração
a receber esta essência ruim.

Libertação do etéreo, fluindo no além,
vagando em solidão, até merecer
incorporar em ser vivo qualquer,
peixe, ave, cavalo, cão, homem, alguém.

Alma viva, memórias imortais,
de incontáveis encarnações, persistindo
em justeza, inconformismo, intensidade,
caridade, compaixão, reciprocidade.
Sofrimento como preço, mudar jamais.

Não quis aprender a relevar, esquecer.
Acumulou o que ninguém compreendeu.
Envenenou-se, agoniou-se, transbordou,
desejou, tentou, mas não morreu.

Por fim, incautamente,
confronto infernal, criatura do mal,
face estática, cadavérica, boca prava, 
dublando comparsas do Umbral,
a sorrir, calma, 
a instilar veneno 
impronunciável,
decisão inabalável
de ferir a alma.

Doeram a intenção, a maldade,
contra quem sempre lhe dedicou verdade,
tempo, vida, a ouvir lamentos, 
trazer alentos.

Logrou intento,
deflagrou cataclismo
neste trapo desumano.
Esfarraparam-se sinapses,
fragmentaram-se memórias,
desfizeram-se redes neuronais,
alteraram-se neurotransmissores,
esfrangalharam-se nervos, coração,
sentimentos, sensos e consciência,
orientação, equilíbrio, competência,
autoconfiança, autodeterminação.
Abriram-se portas à multitude
de seres e palavras e agravos
afoitos, quer justos, quer não.

Depressão, surtos, tristeza primordial,
inexoráveis químicos, apaziguadores,
de quem sempre fui e sou atenuadores.

Experiência cruel, definitiva.
Dolorosa demais esta vida,
cujo fim não me competiu determinar.
Desta passagem, volto à alma cativa.
Quero, sei, breve estarei de partida,
noutra pedra, à frieza interestelar.
Não desejo retornar.

setembro - dezembro, 2013