Mais a visão se aprofunda,
mais estrelas se percebem,
na escuridão...

22 de outubro de 2013

Cálculos vitais

αv + dv/dt – (n+k).∆tp + (ⁿ√tg) / (n+k¶) ≡ Ωv
α=Energia inicial    Ω=Energia final    v=vida    t=tempo    p=perdido    g=ganho
(n+k¶)=Incontáveis vezes      Integral e Somatório variam de 0 a ∞


Chega de intervalos infinitesimais, derivadas, integrais,
de inefáveis limites tendendo a infinito ou a zero,
de maquiavélicas provas, teorema do valor médio,
daquilo que se desfere, e fere, sem trazer remédio,
de memórias, dores, perdas, tudo o que não quero,
porque as transições desta vida são muito, muito mais.

Chega de espaços amostrais, probabilidades,
eventos equiprováveis e gaussianas,
correlações por mínimos quadrados,
intervalos de confiança, inadequados,
médias, normas, variâncias, medianas,
porque meu ser é um todo de singularidades.

Chega de sistemas de equações,
vetores,  matrizes, determinantes,
de Gauss-Seidel, de otimizações,
suas regiões de sela, inexoráveis,
colapsos do método, inaceitáveis
pontos e linhas perdidos no tempo,
sem amanhã, sem hoje, sem antes,
sem um olhar às outras dimensões.

 Chega de admiráveis, cansativos fractais,
de Mandelbrot, de dimensões fracionárias,
de recortes auto-espelhados, narcisísticos,
de Fibonacci, Fourier, de séries arrogantes,
de proto-similitudes naturais, imaginárias,
porque as razões desta vida são muito mais.

outubro.2013
©Alfredo Cyrino / Indigo Virgo®

Nota
Limitado ao meu humilde conhecimento científico, apenas um arrazoado sobre as formas de ver a vida sob as óticas do zero ou um, da previsibilidade e massificação dos seres, dos métodos supostamente onipotentes, da crença em que a Natureza sempre obedeça aos padrões que observamos e modelamos, do desconsiderar a existência de outros planos, outras esferas.

8 de outubro de 2013

Depois do cataclismo


Um dia, ainda lerei, agradecido,
tudo o que me tenham escrito
aqueles que se preocuparam comigo.

Por um longo tempo ainda,
nenhuma leitura que origine interação,
nenhuma interação que origine reação.

Expressão em via única,
escrevendo apenas neste espaço,
dissecando eventos, tropeços e quedas,
expiando falhas, fortalecendo determinação.

Orando diariamente, coração e alma,
por todas as vítimas do cataclismo,
as que feri e as que me feriram,
quem quis destruir, no pior momento,
quem sofreu, quem causou sofrimento,
quem rogou pragas, quem trouxe alento.

Curando corpo e espírito, lenta e resignadamente,
marcas de autoflagelo, que de nada serviram,
dons do pensamento, que quase se foram.

Reconstruindo a vida.
Tentando esquecer certas visões
de mim mesmo, nas fotos e nos espelhos,  
assimilar significados e efeitos
de coisas que disse, mas não ouvi e não sei.
Resgatando cacos e vestígios
da minha história.
Lacrando gavetas emboloradas
da indelével memória.

Confiando em que os médicos e os químicos
exorcizem meu demônio do meio-dia.
E meu anjo torpe, que tenha paz...

outubro - novembro.2013
©Alfredo Cyrino / Indigo Virgo®

3 de outubro de 2013

Alma numa pedra


Alma numa pedra, consciente,
tudo percebendo, tudo retendo,
cruzando Universo, bilhões de anos,
curvaturas do espaço-tempo,
anomalias gravitacionais,
buracos negros, facho azul infinito,
dutos intergalácticos, quásares,
nebulosas, grupos globulares,
cemitérios e berçários estelares,
jornada estupefaciente, ser contrito,
a esta galáxia chegando, enfim,
predestinada colisão,
do planeta infeliz coração
a receber esta essência ruim.

Libertação do etéreo, fluindo no além,
vagando em solidão, até merecer
incorporar em ser vivo qualquer,
peixe, ave, cavalo, cão, homem, alguém.

Alma viva, memórias imortais,
de incontáveis encarnações, persistindo
em justeza, inconformismo, intensidade,
caridade, compaixão, reciprocidade.
Sofrimento como preço, mudar jamais.

Não quis aprender a relevar, esquecer.
Acumulou o que ninguém compreendeu.
Envenenou-se, agoniou-se, transbordou,
desejou, tentou, mas não morreu.

Por fim, incautamente,
confronto infernal, criatura do mal,
face estática, cadavérica, boca prava, 
dublando comparsas do Umbral,
a sorrir, calma, 
a instilar veneno 
impronunciável,
decisão inabalável
de ferir a alma.

Doeram a intenção, a maldade,
contra quem sempre lhe dedicou verdade,
tempo, vida, a ouvir lamentos, 
trazer alentos.

Logrou intento,
deflagrou cataclismo
neste trapo desumano.
Esfarraparam-se sinapses,
fragmentaram-se memórias,
desfizeram-se redes neuronais,
alteraram-se neurotransmissores,
esfrangalharam-se nervos, coração,
sentimentos, sensos e consciência,
orientação, equilíbrio, competência,
autoconfiança, autodeterminação.
Abriram-se portas à multitude
de seres e palavras e agravos
afoitos, quer justos, quer não.

Depressão, surtos, tristeza primordial,
inexoráveis químicos, apaziguadores,
de quem sempre fui e sou atenuadores.

Experiência cruel, definitiva.
Dolorosa demais esta vida,
cujo fim não me competiu determinar.
Desta passagem, volto à alma cativa.
Quero, sei, breve estarei de partida,
noutra pedra, à frieza interestelar.
Não desejo retornar.

setembro - dezembro, 2013