Mais a visão se aprofunda,
mais estrelas se percebem,
na escuridão...

1 de agosto de 2013

Onírico


Acordo em sobressalto, sonho ainda vivo em minha mente.

Vejo-me na área externa de um conjunto de prédios, talvez comerciais, talvez um hospital.

O local me passa uma energia leve.

Uma praça muito ampla, pavimentada em bloquetes de concreto, com jardins gramados circulares, elevados uns 50 cm do chão, cada um deles com mesas redondas e banquinhos ao redor, tudo em cimento moldado, ou pedra, não sei ao certo.

Sentado num dos banquinhos, meio de lado para uma das mesas, joelhos quase encostados na lateral de um dos jardins elevados, observo a entrada de um dos prédios, como que esperando algo, talvez ser chamado para poder entrar e ver alguém, ou esperando alguém sair. Alguém que eu sei quem é.

Meu telefone celular e meu maço de cigarros ajeitados sobre a beirada da mesa, perto de minha mão direita.

Levanto-me, impaciente, como se já fosse hora de algo ocorrer, hora de entrar para ver alguém, ou ir receber alguém à saída daquele prédio.

Já em pé, pegando meu celular e meu maço, noto agora mais alguém, sentado à mesma mesa, lado oposto.

Um rapaz com duas crianças, dois meninos.
Têm cabelos escuros, um deles aparentando 5 a 6 anos de idade, o outro 7 a 8 anos talvez.  
Ambos estão em pé, grudados ao rapaz (ainda sentado), voltados para ele e de lado para mim. Devem ser seus filhos.
Não vejo seus rostos...

Ele me diz algo:

Você (diz o meu nome) deveria ir ao andar tal.  
Lá existe um (algo para comer ou beber) que você poderá gostar.

Surpreso, olho melhor para ele:

Eu --- Você sabe o meu nome?

Ele --- Sim! Você sabe quem eu sou?

Eu --- Você é...

Ele confirma com um movimento lento de cabeça, olhos fixos em mim.

Continua sentado, tem um ar sereno e  entristecido, aparência um tanto frágil, parece mais magro e um pouco mais baixo do que eu, cabelos lisos, um tanto longos, mais para escuros, barba por fazer.

Dou um passo em sua direção, mas não sei o que dizer.

Estendo a mão para um cumprimento:

- Podemos conversar?

Ele estende o braço para o cumprimento, mas permanece mudo.

Eu o cumprimento, mas contenho meu aperto de mãos  habitual.

Ele se levanta, como se preferisse conversar andando.

Eu o acompanho.

Estamos agora caminhando lado a lado, por uma calçada que nos distancia dos tais prédios e de sua praça e jardins.
Os meninos não estão mais com ele.

Estou com ambos os braços à frente, carregando junto ao peito umas cobertas enroladas, talvez um colchonete.
Sinto como se aquilo fosse a única coisa material que eu possuísse.

Caminhamos conversando sobre aquele alguém que eu esperava poder ver.

Ele fala expressando inconformismo e tristeza.

Estou calmo, tentando entender, argumentar, apaziguar.

Ele vai mudando de tópicos, misturando inconformismos, argumentos, preocupações com a família, problemas materiais que estariam por vir.
Critica a minha integridade como pessoa.

Na verdade, até este ponto, não ouço propriamente as palavras dele, mas apenas sinto o conteúdo e a natureza do que ele diz, e ouço a mim mesmo, em minhas tentativas de responder com lógica.

Um desespero que me lembra conversas cíclicas, sem fim.

Estou agoniado com esse tipo de discussão, quase monólogo.

Forço uma parada na caminhada e consigo falar:

- Olhe (digo o nome dele), não vamos chegar a coisa alguma discutindo assim, sem analisar e concluir tudo o que for dito.
Precisamos parar com isto!

- Faz tempo, imaginei, sim, ter esta conversa com você, mas em um local quieto, sem interferências, sentados a uma mesa, tomando um café, com calma, civilizadamente, sem um querer ferir outro, apenas sinceridade total, meu amigo.

Sei que ele me entendeu, mas continua irritado.

Estamos parados na calçada, em frente a uma casa aparentemente abandonada, paredes não revestidas, tijolos alaranjados e já com limo escuro de chuva. Existe um corredor lateral à casa, permitindo ver um trecho de escada que desce.

Está chovendo, mas somente sobre a casa e não sobre nós, na calçada.

Ele aponta para a casa e começa a dizer:

- Conversar com calma?
Está bem!

- Quer entrar para conversar? (apontando o corredor e escadas da casa)

- Quer mesmo descer ao porão dessa sua casa de lágrimas?

- Olhe bem! Aquilo não é chuva! Percebe?

(Vejo aquela chuva e penso em lágrimas...)

- Só vou dizer uma coisa!
- Eu não vejo nem a ela nem às crianças com esses seus olhos de sonho!

- Eu a amo e a vejo e cuido dela e das crianças com os meus olhos reais, está entendendo?

- Meu coração está esfarrapado, longe da minha filha, mas sei que o coração dela se esfarraparia mais do que o meu, se ela ficasse longe de nossa filhinha.

E então grita isto três vezes, com muita ira:

- Você não sabe tudo sobre ela !
- Você não sabe tudo sobre ela!
- Você não sabe tudo sobre ela!

Ele continua apontando... e eu novamente olho para a casa...

Aquelas palavras ecoando em minha mente, uma tristeza profunda, imensa, enquanto aperto as cobertas enroladas contra o peito, e as vejo se desfazendo em areia branca, fina, caindo aos meus pés.

Permaneço ali, imóvel, vendo a chuva sobre a casa, a areia branca se espalhando sobre a calçada seca, com aquela dor cortante, enquanto percebo que ele se afasta, caminhando em direção à praça dos prédios (que agora parece bem mais próxima do que antes, considerando o tanto que havíamos andado até então).

Na calçada da praça, três crianças o esperam (agora há uma criança bem menor, uma menina, junto aos meninos).

Ele toma a menor ao colo, os meninos o acompanham, um de cada lado... e entram na praça, rumo àquele prédio que eu antes observava.

Não os vejo mais... só vejo a calçada da praça...

Desvio o olhar da calçada ao longe e penso:

         Ele desistiu, foi embora.
         Ela não está lá!
         Ela está aqui, na casa!

Olho novamente para a casa abandonada, semi-inundada. A tristeza volta, e percebo que ali moro eu, eu mesmo, somente eu.

Olho novamente para a calcada da praça (ainda um tanto próxima) e vejo um casal já saindo da praça para a rua.

Duas crianças estão de mãos dadas com ele.
A outra criança no colo da mulher, que eu reconheço.

Enquanto ele interage calmamente com os dois meninos, percebo que ela me olha.

Seus olhos, enormes, me observam fixamente.

Não tenho medo de interpretar o que me dizem: serenidade triste, agradecimento, adeus.

A menina em seu colo também me olha fixamente e faz um aceno de "tchau", com a mãozinha aberta.

Retomam o caminhar pela calçada, distanciando-se de mim.

Uma ventania varre a areia branca para dentro e através do portão gradeado da casa, agora sem mais chuva.

O casal e as crianças desaparecem, ao longe.

Penso em entrar na casa, mas acordo com a minha própria voz dizendo:

- Fiz minhas escolhas.

- Não quero mais morar aqui.

julho de 2013