Mais a visão se aprofunda,
mais estrelas se percebem,
na escuridão...

2 de agosto de 2013

Consertar sapatos

  
 






(Deixar-se um pouco à deriva, no meio do oceano, para olhar as estrelas...)

Dias recentes, eu mesmo consertei dois pares de calçados, um meu, outro de minha esposa. Ambos com aparência ainda razoável, mas funcionalmente exauridos, solados tendendo a descolar, recuperação trabalhosa.

Já haviam passado pelas mãos de um sapateiro, mas com resultados precários.

Comprei um tubo de cola especial, seu custo correspondeu a uma porção mínima do preço de um reparo profissional.

Longa e cuidadosa restauração, projetada e realizada nos intervalos de trabalho... durante os quais o pensamento terminou passeando pelos relativamente recentes tempos de abundância material, estabelecendo um inevitável confronto com os dias atuais.

Flashbacks

Uma certa tristeza, ao pensar em tantos e tantos bens materiais novos e semi-novos que já tivemos condições de presentear ou doar, tanto para renovar, quanto pelo prazer de fazer alguém feliz.

Comprávamos os melhores produtos de suas classes, sempre objetivando qualidade, a despeito de marcas ou grifes, detalhes estes que importam mais a quem pretende "mostrar o que possui".

Tempos em que o meu trabalho profissional em muito contribuiu (digo sem modéstia) para a formação e instituição de uma cultura empresarial de utilização ágil, segura e eficaz de recursos de TI (tecnologia da informação).

Talvez porque, numa era pré-Internet, participei de uma classe de pioneiros visionários, a construir sistemas de informação gigantescos, funcionais e confiáveis, a partir de ambientes e ferramentas de software quase sempre incompatíveis entre si, e utilizando hardware (equipamento) lento, custoso e limitado.

Tempos em que éramos bem compensados por sermos aqueles que "tiravam leite de pedras", através de extenuantes e compensadores exercícios de lógica e criatividade, para superar as deficiências das tecnologias disponíveis.

Primórdios da computação conectada, freqüentava os chamados BBS (Bulletin Board Systems), muitos dos quais vieram a se transformar em grandes ISPs (provedores de acesso à Internet e serviços associados).

Empurrava meus clientes (maioria corporativos) para a Internet, numa época em que, documentadamente, todos eram temerosos e resistentes, argumentando tratar-se de "coisa para nerds e micreiros".

Durante muitos anos, criei, implantei, implementei e geri os meus sistemas, meus filhos trabalhadores, empregados nas empresas dos meus clientes.

Andava com meus próprios sapatos, pelos caminhos que traçava para mim e para os que me acompanhavam na jornada, clientes, colaboradores, discípulos (sim!), amigos que ofereceram ajudas inestimáveis, e minha esposa-parceira-sócia.

Mais recentemente...

Há alguns anos, por uma conjunção de fatores perversos, incluindo atos criminosos de determinado cliente (grande empresa), e uma absoluta não-reciprocidade por parte de pessoas que hoje trato distante e cordialmente por "seres normais", sofremos enorme impacto em nossas finanças e em nossa capacidade de empreender a partir dos softwares até então desenvolvidos.

O evento terminou por me deslocar do mercado de TI, mais por desilusão com respeito às pessoas que transitam no ambiente corporativo - público alvo do trabalho que eu desenvolvia.

Para prosseguir interagindo com seres humanos "espertos", teria de desenvolver e exercitar um tipo de esperteza que jamais pretendi incorporar ao meu modo de ser, embora fosse capaz de fazê-lo com perfeição, se desejasse.

Tentei ainda algumas incursões no terreno de TI, as quais me custaram elaborados anteprojetos e até projetos semi-detalhados, contendo soluções para problemas que os potenciais clientes consideravam críticos, complexos, quase insolúveis.

E todos esses potenciais clientes exerceram fina esperteza, a partir do momento em que tomaram conhecimento mais detalhado das soluções propostas.

(Sempre, em algum momento, torna-se necessário detalhar as soluções, para viabilizar a decisão sobre uma possível contratação).

Aprendi que clientes potenciais são ainda mais espertos do que clientes contratados.

Então, apesar de desenvolver software por vocação, abandonei sem remorsos estas capacidades e qualificações.

Conseqüentemente, em pouco tempo e por questão de sobrevivência, tive de me reinventar profissionalmente.

Recorri a outros repositórios de conhecimento, como a linguagem escrita e o domínio de outros idiomas, objetivando prestar serviços "mais a varejo", mais livres de contatos prolongados com as pessoas ditas normais.

Isto resultou em incursões pelo universo da tradução técnica, onde creio haver estabelecido uma respeitável reputação profissional, ao longo dos anos recentes.

Infelizmente, esta é mais uma área em que a esperteza impera, remunerando pessimamente os profissionais (maioria de freelancers), aqueles efetivamente responsáveis pelos serviços que as agências de tradução entregam aos seus clientes. Mas, isto mereceria uma dissertação à parte, que foge ao escopo deste texto.

Ainda, por caminhos inesperados, unindo este trabalho com textos e os conhecimentos de TI, tornei-me responsável técnico e editor de dois websites de meu irmão Marco, além de criar um website meu, atividades estas que me permitiram voltar a ter algum prazer com o meu trabalho.

Nesta fase, aprendi também (não sem fortes resistências) a "aceitar receber ajuda", algo até então insuspeitado para quem sempre se viu como provedor bastante e suficiente a si mesmo e aos que o acompanham na jornada.

Estas percepções e constatações me passaram pela mente, recorrentemente, durante os dias em que consertei os tais sapatos.

Voltando aos sapatos rotos...

Os consertos se mostraram bastante efetivos e duráveis, com resultado estético quase bom, aspecto este pouco relevante face à compensação pessoal de ser capaz de consertar, e poder continuar a usar algo cuja substituição não se ajustaria ao orçamento atual.

Ainda, um desses pares remendados, por duas vezes, freqüentou eventos sociais familiares em que todas as pessoas ostentavam grifes em tudo o que trajavam ou portavam.

Ninguém, além dos meus felizes pés, sequer observou ou notou o estado daquilo que eu calçava.

Ao longo da vida, aprendi a detestar a autocomiseração.

Assim, diante das dificuldades materiais atuais, mantenho a convicção de que só preciso do essencial, procurando extrair o melhor daquilo que tenho, manter a nave assestada, ouvir os ventos, estabelecer rotas, enxergar um pouco além do horizonte.

In questo mondo di cartone,
seja feliz com o que possuir ou estiver usando,
pois as pessoas imaginam que você esteja usando
aquilo que esperam que você esteja usando.
E se não imaginarem, problema delas...

Não desista diante de agruras, espertezas, palavras duras.
Mesmo se lhe roubarem a vocação, reinvente-se.
Talvez isto o conduza aos melhores caminhos da vida.

dez.2012 - ago.2013