Mais a visão se aprofunda,
mais estrelas se percebem,
na escuridão...

20 de março de 2012

Limpar calçadas


Vinha refletindo há alguns dias sobre as fases profissionais pelas quais passamos, ao longo dos anos.

Neste domingo, logo após o almoço, conversava com minha esposa, considerando com certo amargor a regra comum dos disparates, mormente neste país, em face do quanto recebemos ou deixamos de receber pelo valor agregado de conhecimento, tempo, esforço intelectual, aplicados à realização do nosso trabalho.

Ainda falávamos disto, quando bateram palmas à nossa porta.
Campainha desligada há tempos, insistiram bastante.

Não era o habitual grupo de carolas de final de semana, sempre ansiosas por catequizar moradores incautos, mas sim um casal.

Quando cheguei à parte da frente da casa, já falavam quase que simultaneamente com a minha esposa.

Enquanto permanecia no limiar da porta de acesso ao jardim, aguardando que ela descobrisse de que se tratava, observei aquelas pessoas ainda jovens, 25 a 35 anos, vestidas humildemente, expressões cansadas sob o sol, um carrinho de mão com algumas tralhas, estacionado no meio-fio, uma cadela preta que os acompanhava.

Ouvi dizerem mais de uma vez que "eram pessoas de bem",
evidenciando a consciência de que a sua condição pudesse provocar julgamento preconceituoso.

Jussára me explicou que queriam limpar a enorme calçada, remover aqueles tufos de mato persistentes, que constituem realmente um problema.

Pediam em troca "qualquer ajuda" em dinheiro ou em gêneros.

Alguma coisa me incomodou, naquela situação.
Preferi não aceitar a oferta.
Minha esposa se aproximou para conversarmos melhor.

Um silêncio de expectativa aguardava no outro lado do portão.

Mantive a recusa, como se pudesse explicar meus inexplicáveis motivos, transparecendo talvez minha expressão de "caso encerrado".

Já me voltando para o interior da casa, percebo a moça, muda, curvando a cabeça para frente, deixando ambos os braços caírem e baterem contra o corpo, num gesto desacorçoado de quem desiste diante de mais uma negativa.

Alguma coisa, agora em mim mesmo, me incomodou.
Não precisei dizer à minha esposa...
Fomos até o portão e concordamos que fizessem a limpeza de calçada, combinando um valor compatível com as possibilidades do momento.

Suas faces e palavras agradecidas expressavam a importância daquela remuneração modesta, pelo trabalho relativamente pesado que estavam por realizar.

Em alguns segundos de uma interação verbal múltipla e simultânea (algo que foge à minha capacidade), Jussára se inteirou de que "moram" a céu aberto, em um terreno próximo, pertencente à concessionária de energia elétrica, onde cuidam também de oito ou nove cães.

Pensativos, saímos dali para que trabalhassem em paz.

Após um tempo relativamente longo, concluíram a tarefa com esmero, receberam o valor combinado e uma pequena ajuda em gêneros e ração para os cães.

Mais uma vez agradeceram efusivamente, e lá se foram rua acima, acompanhados pela cadela Bolinha, talvez rumo ao terreno-lar, talvez ainda procurando outras calçadas a limpar.

Seres que transitam entre o visível e o invisível, na metrópole e na vida, na dimensão mais dura que os disparates podem assumir, vieram me dizer que amargor é puro exagero.
19/03/2012

16 de março de 2012

Seres inexistentes


Criaturas estáticas,
povoando outdoors, displays, revistas,
situações contrárias à Física Newtoniana,
proporções cruelmente deformadas,
recriações digitais ofensivas
aos seres originais.

Criaturas em movimento,
transitando em mídias ocas,
points, baladas, clubes, carnavais,
academias, resorts, cenas policiais,
derramando palavras fúteis,
produzindo factóides,
fazendo em público tudo de tudo,
pelo momento de exposição.

Seres improváveis,
homens, mulheres e in-betweens,
estereótipos do triste exagero,
desfilando quase naturalmente
seus exoesqueletos protéticos,
linhas esculpidas a sugador, seringa,
bolsas e placas de silicone,
suas ameaçadoras faces isósceles
de mandíbulas alargadas,  
lábios inchados a restylane,
dentes fluorescentes, radiativos,
expressões parvas, botulínicas,
seus cabelos tratados a culinária,
recozidos a íons, laser, microondas,
suas vozes guturais, esteroidizadas,
a recitar scripts jamais seguidos.

Mariposas na limelight,
pontos luminosos em movimento
caótico, efêmero.

Decisões inconseqüentes,
autoflagelo sem perdão.
Seres que não serão,
sob seres inexistentes.

dezembro/2011

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7 de março de 2012

Eu vi...


Faz algum tempo...

Acompanhei uma familiar, durante tratamento realizado na Divisão de Medicina de Reabilitação, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (DMR HC FMUSP).

A unidade de atendimento, denominada Estação Especial da Lapa, funciona em enorme galpão, situado na estação Lapa da CPTM, aqui em São Paulo.

Comparecemos durante cinco semanas consecutivas, duas vezes por semana.
Chegávamos pouco depois das 6h00 da manhã, bem antes do horário marcado, para fugir ao trânsito da cidade.

Após deixar a paciente aos cuidados da fisioterapeuta, eu permanecia em uma área de espera, através da qual continuavam a chegar mais e mais pessoas, para os seus tratamentos.

Penso que a severidade dos casos exigisse tal ambiente de áreas praticamente abertas, para facilitar a locomoção, o que também me proporcionava visão plena da área de atendimento.

Por diversas vezes, conversei com acompanhantes de alguns pacientes, enquanto observava aqueles seres humanos oferecendo e recebendo tratamento.

Decorreram inevitáveis reflexões sobre involuntários "registros mentais fotográficos" que ainda me acompanham, e que passo a relatar em detalhe apenas suficiente ao objetivo deste texto.

Vi um casal de idosos.
Ele, semi-tetraplégico, sempre sorrindo e animado com os pequenos progressos conseguidos a cada sessão de tratamento.

Observei o seu esforço ao praticar exercícios terapêuticos que, para nós, não passariam de jogos infantis, como colocar algumas argolas em uns pinos sobre a mesa, elevar uma bola de plástico acima da cabeça, montar um puzzle de peças bem grandes, passar um objeto de uma mão para outra.

Soube que a sua condição resultara de um evento relativamente recente.

Residentes inicialmente no interior de São Paulo, enfrentavam 6 horas de viagem, duas vezes por semana, para vir às sessões de tratamento.
Mudaram-se depois para a capital, deixando para trás, casa, filhos, netos...

Vi uma mulher, uns 30 anos de idade, paraplégica, sempre trazida pelo marido.
Ambos sorrindo, todos os dias.

Ele a tirava da cadeira e acomodava na banqueta, em frente à mesa em que um grupo de pacientes praticaria os mesmos exercícios terapêuticos.

Notei sua grande dificuldade com os exercícios, e o sorriso que dirigia ao marido, ao final de cada um deles, fosse ou não bem-sucedida.

Vi uma jovem, 18 a 20 anos de idade, tetraplégica.
Vítima de "bala perdida", chegava sempre em uma cadeira de rodas conduzida por duas pessoas.
Mais uma fatalidade da violência urbana.
Seus olhos pareciam determinar o caminho a seguir.

Vi uma criança, máximo de 4 ou 5 anos de idade.
Corpinho afivelado a uma cadeira de rodas minúscula, semelhante a um carrinho de bebê.
Um dos seus braços, imobilizado por uma tipóia de velcro.
Com o outro braço, movia uma das rodas da cadeirinha que, evidentemente, não avançava em linha reta.
Ela sorria e continuava se esforçando.

Sua acompanhante corrigia oportunamente o curso da cadeirinha.
Parecia interferir o mínimo possível, talvez para que a criança sentisse que avançava por seus próprios esforços.

E tantos outros eu vi...
Seres humanos atingidos por alguma devastadora porrada da vida.

Considero haver recebido a oportunidade abençoada de transitar em um mundo praticamente invisível para pessoas que "levam uma vida normal".

Um mundo somente vivenciado pelos que buscam reconforto, expectativa de cura, recuperar qualidade de vida...  
e por aqueles dispostos a prover tudo isto, através de conhecimento, dedicação, respeito, carinho, vocação.

Jamais notei desatenção, ou expressão de contrariedade, desaprovação, desânimo, cansaço, nas faces de quaisquer daqueles profissionais - seguranças, atendentes, pessoal de limpeza, recepcionistas, terapeutas, médicos ou médicas, enfermeiros ou enfermeiras.

Certamente existem, por todo o planeta, outros incontáveis "mundos invisíveis", em suas áreas de atuação específicas, congregando milhões de esperanças.

Desta experiência, aprofundaram-se algumas percepções valiosas e indeléveis:

A insignificância dos problemas, dificuldades e desentendimentos cotidianos, em nossas vidas perfeitas.

O pouco valor que freqüentemente atribuímos às nossas vidas perfeitas.

A mesquinhez de qualquer má disposição, em relação a quem necessite de ajuda para continuar lutando.

A determinação e a coragem dos que persistem lutando, como resultado também da confiança demonstrada por quem os ajuda a lutar.

A dedicação sincera, como a melhor expressão da confiança.

Dias atuais...

Ontem, a propósito de certa desinteligência minha, recebi de meu irmão uma frase simples, sintética, que me levou a resgatar este texto e encerrá-lo com leveza:

"A vida é muito curta, e acabamos perdendo tempo 
e oportunidade de ser (e tornar os outros) mais felizes."
Marco Cyrino  



2 de março de 2012

Não são eternos…

Lucio Dalla
04/03/1943 - 01/03/2012
(foto: AP, by Joel Ryan)


Ao longo da vida, construímos uma espécie de repositório, no coração, onde guardamos amigos, poetas, escritores, músicos, esportistas, pintores, artistas em geral, todos os que nos sejam caros e estejam longe de nossos olhos.

E passamos a levar conosco a tranqüila convicção de que sempre estarão bem, em algum lugar, sempre realizando aquilo que um dia, de alguma forma, nos fez bem.

Hoje, 1º de março de 2012, partiu Lucio Dalla, mais um a quebrar precocemente esta nossa ilusão.
Não são eternos.

Não falarei de tristeza, mas de Felicità, nas palavras do autor.

Felicità (Lucio Dalla)


Se tutte le stelle del mondo,
a un certo momento,
venissero giù

Tutta una serie di astri
di polvere bianca
scaricata dal cielo
ma il cielo senza i suoi occhi
non brillerebbe più

Se tutta la gente del mondo
senza nessuna ragione
alzasse la testa
e volasse su.

Senza il loro casino
quel doloroso rumore
la terra povero cuore
non batterebbe più
...
...
Ma se questo mondo
e' un mondo di cartone
allora per essere felici
basta un niente
magari una canzone
o chi lo sa...
...
...
Ah...
felicità...
su quale treno della notte viaggerai
Lo so...
che passerai....
ma come sempre in fretta
non ti fermi mai.
Felicidade
(versão livre - fragmentos)

Se todas as estrelas do mundo,
num certo momento,
viessem abaixo

Uma miríade de astros,
de pó branco,
despejados  do céu,
mas o céu, sem os seus olhos,
não brilharia mais,

Se todas as pessoas do mundo,
sem qualquer motivo,
levantassem as cabeças
e voassem.

Sem a sua "bagunça",
aquele doloroso rumor,
o pobre coração da terra
não bateria mais.
...
...
Mas, se este mundo
é um mundo de mentira,
assim, para ser feliz
basta um nada,
talvez uma canção,
ou quem sabe... 
...
...
Ah...
felicidade...
em teu trem noturno viajarei.
Eu sei
que passarás,
como sempre, apressada,
não ficarás.


Vídeo e Letra original, em Italiano.



Felicità (di Lucio Dalla)

Se tutte le stelle del mondo,
a un certo momento,
venissero giù

Tutta una serie di astri
di polvere bianca
scaricata dal cielo
ma il cielo senza i suoi occhi
non brillerebbe più

Se tutta la gente del mondo
senza nessuna ragione
alzasse la testa
e volasse su.

Senza il loro casino
quel doloroso rumore
la terra povero cuore
non batterebbe più

Mi manca sempre l'elastico
per tener su le mutande
cosi' che le mutande
al momento più bello
mi vanno giù

Come un sogno finito
magari un sogno importante
un amico tradito
anch'io sono stato tradito,
ma non m'importa più

Tra il buio del cielo
le teste pelate bianche
le nostre parole
si muovono stanche,
non ci capiamo più

Ma io ho voglia di parlare
di stare ad ascoltare
continuare a far l'asino
di comportarmi male
per poi non farlo più

Ah...
felicità...
su quale treno della notte viaggerai
Lo so...
che passerai....
ma come sempre in fretta
non ti fermi mai

Si tratterebbe di nuotare
prendendola con calma
farsi trasportare
dentro a due occhi grandi
magari blu

E per dovermi liberare
attraversare un mare medioevale
guardare contro un drago strabico
ma di draghi baby
non ce ne sono più

Forse per questo i sogni
sono cosi pallidi e bianchi
e rimbalzano stanchi
tra le antenne lesse ???lesste???
delle varie t.v.

E ci ritornano in casa
portati da signori eleganti
si si che parlano
e tutti quanti che applaudono
non ne vogliamo più

Ma se questo mondo
e' un mondo di cartone
allora per essere felici
basta un niente
magari una canzone
o chi lo sa...

Se no sarebbe il caso
di provare a chiudere gli occhi
e poi anche quando hai chiuso gli occhi
chissà cosa sarà

Ah...
felicità...
su quale treno della notte viaggerai
Lo so che passerai...
ma come sempre in fretta
non ti fermi mai

Ah...
felicità...
su quale treno della notte viaggerai
Lo so che passerai...
ma come sempre in fretta
non ti fermi mai

Ah...
felicità...
su quale treno della notte viaggerai
Lo so che passerai...
ma come sempre in fretta
non ti fermi mai