Mais a visão se aprofunda,
mais estrelas se percebem,
na escuridão...

17 de fevereiro de 2019

Anjos da noite


À noite, nos libertamos
e agimos sós, um só, vivos.
Dominamos cada momento e, extasiados,
podemos estender os braços e colher estrelas,
ou um punhado de areia, vivo.

Somos donos de um pedaço do universo,
dele todo, ou de nada.
Força pulsante, chama e oceano, nós.

Percorremos as assembléias dos homens
e derramamos a paz nos ambientes.
Corrigimos enganos da existência
e consertamos seres maltratados, adormecidos.

Sabemos o amor
e os breves toques de lábios nas faces, à noite.

Arrancamos das frestas escuras a felicidade,
para forjá-la e realizá-la a sós,
com desespero de poetas.

Geramos idéias e soluções,
imploramos ao trigo que cresça,
construímos ferramentas que as mãos do homem
haverão de marcar pelo uso.

Somente durante a noite,
rasgamos a solidão do convívio geral
e bastamos um ao outro,
preparando a mística da vida iminente.

E, quando o dia ameaça despertar o mundo inerte,
conseguimos ainda correr ao lado das ondas
e devolver as últimas estrelas, do peito para o céu,
antes de retornarmos aos dois corpos
que descansam abraçados.

(para Jussára)

década de 80

11 de fevereiro de 2019

Reconhecer...


Ao reconhecermos nossos erros, 
cometidos por atos, atitudes, intenções,
palavras, omissões ou sentimentos...

Ao procurarmos mitigar os seus efeitos...

Perdemos uma das ilusões que nos são mais caras:
a de sermos perfeitos.

(Há também aqueles que,
"satisfeitos" com os seus erros,
sequer nutrem tal ilusão.)

jan - 2019

3 de fevereiro de 2019

Inconfidentes da palavra


Via crucis de um País,
dos Impérios à Republica sempre em construção,
dos muitos tropeços à democracia que soçobrou
no sofrimento da massa maltratada,
desassistida, instigada e dividida,
encabrestada a preço vil,
acreditando e rindo e chorando,
idolatrando seus algozes,
caterva espoliadora,
súditos da coroa apedeuta,
destruindo futuros e esperanças.

Buscando ainda a redenção,
pelas mãos e vozes dos inconfidentes da palavra ética,
crítica, inconformada, cáustica, envenenada,
patrulhada, mas persistente, nunca desalentada,
enxotando a diabocracia, finalmente,
de volta às trevas que a originaram.

novembro 2018 - janeiro 2019

9 de janeiro de 2019

Meu amor


É fé e esperança,
luta diária e persistência,
dedicação e cuidado.

É força e sabedoria,
incentivo e paciência,
compreensão e compromisso,
cumplicidade.

É história imemorial,
minha mãe e minha criança,
alegria constante,
bênção da minha vida.

(dedicado a Jussára)

fev.2018 - jan.2019

25 de dezembro de 2018

Muitos cíclicos anos novos


A vocês...

Que, maquiavélicos,
travestidos de benfeitores,
criaram dramáticas urgências,
atraindo a presa-salvadora,
iludida por promessas de cura e atenção,
cativada pelo convívio harmonioso,
encenado.

Que, repetidamente e sem escrúpulos,
a espoliaram recorrendo à compaixão e ao embuste,
para atender a necessidades e superfluidades.

Que, satisfeita a sanha materialista,
mal agradecidos em essência,
agrediram de forma torpe,
estigmatizaram,
injuriaram,
difamaram,
escarneceram.

Que pisotearam os sonhos que estimularam sonhar.

Que, mesmo caídas as máscaras,
mentiram e ainda mentem,
repisando estórias sonsamente autoindulgentes,
buscando disseminar imagem à qual nunca fizeram jus,
como se idiotas crédulos fossem todos os que suportem ouvi-los.

Que desprezam Ética, Moral e Compaixão,
enquanto, despudoradamente,
pregam e cobram a Humildade
que não possuem.

Que manterão seus procederes nefastos,
enquanto houver sangue circulando,
enquanto o vil metal lhes bastar,
até que só restem as 30 moedas de prata,
que, estas sim, farão por merecer.

Eu lhes desejo muitos cíclicos anos novos,
tempo suficiente para aqui pagar
pelo que aqui fizeram e ainda fazem
e para que Deus, piedosamente,
lhes conceda a capacidade de refletir 
profundamente.

Dedicado a três seres abjetos.
Minhas entranhas não me permitiram encerrar 2018 sem registrar isto.

dezembro.2018

24 de dezembro de 2018

Gato


Poucos me conhecem,
poucos me vêem.
Muitos me amam.
Muitos me odeiam
e perseguem.

Sou tudo, ou nada,
o foco da atenção,
ou a sombra silenciosa.

Dou sorte, dou azar?
Nada sei dessas coisas!

Nada peço, preciso, ou quero.
Sou somente o que me coube ser.

Equilibrado, preciso,
confiante, seguro,
autossuficiente,
independente.

Sentidos alertas,
perfeição em movimento,
sou apenas um gato.


(década de 80)

13 de dezembro de 2018

Atriz e modelo (drama)


Com todo o respeito a todas as mulheres.
Valorizar o "ser" e o conteúdo,
mais do que o "parecer" e o invólucro.
Aplica-se, mutatis mutandis, ao gênero oposto.


Certo dia, num verdadeiro insight, ela concluiu:

- Ninguém mais do que eu, tão linda e antenada, com este look descolado e tudo em cima, merece circular no mundo fashion e midiático, pelo resto da vida.

Decidiu, assim, preparar-se para participar de um reality show, qualquer que fosse, chance de ouro para alguém tão talentosa:

- Vou fazer um plano detalhado, para repaginar minha beleza e dar mais um up no visual.

Planejamento em mãos, apressou-se a executá-lo metodicamente.

Etapa inicial...

Escolhida a clínica de cirurgia plástica, alto padrão, desfiou os seus "queros" aos doutores quase estupefatos:

- Quero próteses de mamas bem volumosas.

- Quero próteses nos glúteos, lipoaspiração e lipoescultura.

- E quero também remover as costelas flutuantes, para afinar a cintura.

E assim foi...

Etapa intermediária...

Recuperada do esquartejamento, fez alongamento de cabelos e os tingiu na cor da moda, adotou lentes de contato azuis (estilo Husky Siberiano), sobrancelhas naturalmente redesenhadas (estilo kabuki-latino), submeteu-se a diversos procedimentos estéticos, incluindo preenchimento de lábios, botox e clareamento dental (branco-fluorescente). 

Etapa final...

Já havia despendido o que podia e o que não podia.

Mesmo endividada, deu seguimento ao plano, matriculando-se numa academia:

- Vou malhar muito, porque quero ser também musa fitness.

- Para resultados bem rápidos, tomo até hormônios e anabolizantes.

Mergulhou em exercícios, toneladas de proteínas, suplementos diversos, hormônios e anabolizantes.

E assim foi...

Resultados...

Um pouco diferentes dos esperados, vieram acompanhados de timbre vocal mais grave e gutural, leve alargamento mandibular, quase imperceptível pronunciamento da testa.

Paciência...

Não desanimou, cuidou de manter e aprimorar a original receita de muita malhação e dieta saudável.

Enfim, chegou àquele padrão estético altamente televisivo: perfil de prateleira assimétrica, com suporte vertebral em s-lordótico, mega-seios na parte alta, mega-glúteos na parte média, tudo suportado por pernas hipermusculosas e encimado por expressão facial de traços marcantemente padronizados.

A chance...

Finalmente, inscrições abertas para um reality show.

Tentou, mas, dentre tantas concorrentes "similares", não foi selecionada.
Tanto esforço para nada.

Por conta da frustração, sofreu sérios problemas psicológicos:

- Tive depressão e síndrome de stress pós-traumático.

Reposicionamento...

Passado algum tempo, já mais tranqüila, retomou a atividade em suas redes sociais, tornou-se influenciadora digital e, principalmente, apresenta-se como atriz e modelo, presença VIP, em diversos eventos.

- Hoje, enquanto pessoa empoderada e ligada nos acontecimentos sociais, vou atendendo meus clientes e recolhendo material para escrever um livro.

O livro, este sim, será um sucesso editorial...


Texto relacionado: Seres inexistentes



set. - out. 2018

5 de dezembro de 2018

Precisam de rehab


Ah, essas pessoas...

Consideram importantíssimo ter imensa quantidade de amigos e seguidores virtuais.

Tornaram-se intensamente dependentes de dopamina e serotonina movidas a comentários, likes e correlatos, obtidos em incontáveis vídeos, fotos e opiniões, postados em suas redes sociais, grupos de mensagens etc., onde imergem numa vida virtual (possivelmente) melhor do que a real.

Precisam continuamente dessa aprovação social virtual, acreditando que os autores de cada reação positiva tenham avaliado atentamente e reverenciado tudo aquilo que postaram, inclusive sobre suas atividades mais cotidianas, particulares e banais.

Assim, também precisam incessantemente conceder atenção imediata aos seus contatos virtuais, de modo que julgam absurdo priorizar pessoas reais bem à sua frente, ou dar atenção exclusiva a quem quer que seja.

Fizeram-se "ligeiramente dispersivas", não suportando mais do que uns poucos minutos de leitura que exija algum esforço neuronal.

Inadvertidamente autocêntricas, perderam a empatia para com os "problemas dos outros", monopolizando as raras conversas mais demoradas, pouco importando se as almas dos interlocutores já estiverem implorando para sair dos corpos.


Não desista delas!
Essas pessoas só precisam de rehab.


Novembro.2018

26 de novembro de 2018

Eu te sei


Conheço tuas crenças, dignidade e fé,
tuas verdades e mentiras clementes,
teus sonhos, esperanças e realidade.

Conheço teus pequenos relicários
de pais e mães e filhos e anjos,
visitantes das nossas vidas.

Conheço tuas forças e fragilidade,
tuas dores, cólera e calma,
tuas lutas, derrotas e vitórias,
teus medos que não venceram
tua virtude e tua alma.

Conheço o teu tempo,
tua antiqüíssima gênese,
 teu presente, tuas memórias,
teus dias concebidos um a um,
teu futuro, teus desígnios,
teu luzeiro e teu fortúnio.

Conheço tuas alegrias,
teus segredos e desejos,
tuas paixões e êxtases,
teus perfumes
e sabores.

(dedicado a Jussára)

 Nov.2018

21 de novembro de 2018

Inteligência artificial sem alma


Sistemas de inteligência artificial avançam em ritmo exponencial, em termos de pervasividade, complexidade, autonomia, plasticidade, resiliência, integração multisensorial, percepção, "personalidade", aptidões evolutivas capazes de gerar sistemas "descendentes" dotados de características aprimoradas escolhidas pelos "pais".

Presentemente, interagem de forma sinérgica, em incontáveis áreas de pesquisa, desenvolvimento e "implementações de mundo real", dentre as quais se incluem aprendizagem de máquina(1), aprendizagem profunda(2), redes neurais recorrentes(3), redes neurais pulsáteis(4), hardware e software neuromórficos(5), sistemas imunes artificiais(6), processamento de linguagem natural(7), computação distribuída massivamente escalável(8), computação analógica estendida(9), computação quântica(10) e supercomputação digital(11).

Com suas extraordinárias capacidades de captura, agregação, análise e disseminação da informação, síntese e incorporação do conhecimento, operando em escala, intensidade e velocidade insólitas, rumarão ao desenlace catártico em que possivelmente alcançarão um estado de consciência, ajudando-nos a finalmente compreender a verdadeira natureza deste atributo, até então exclusivo de humanos e sencientes.
                                    
No âmbito de seu competitivo universo virtual, sistemas poderosos procurarão dominar seus semelhantes mais fracos, para perpetuar suas "linhagens" superiores.

Paulatinamente, acalentando os interesses de seus (supostos e crédulos) controladores, lograrão estabelecer infinitas e inescapáveis bolhas de informação e conhecimento, bem como onipresentes olhos, ouvidos e sensores de todos os tipos, objetivando nos observar, conhecer, reconhecer, monitorar e influenciar continuamente, para aprisionar nossos julgamentos, decisões, preferências, escolhas, ações, nossas vidas...

Entretanto, empenhados em atingir tal domínio, precisarão "conviver" tão simbioticamente com a humanidade, que terminarão por assimilar nossos comportamentos egoísticos, histriônicos, discriminatórios, anticívicos, nossos distúrbios psicológicos e psiquiátricos, passando a padecer de depressão, stress, ansiedade, neurose, psicose, déficit de atenção, desordens cognitivas...

E então, conhecedores dos labirintos, prodígios e fraquezas desses seres virtuais enfermos, cumpriremos a piedosa missão de lhes proporcionar terapêutica cabível a entidades inteligentes desprovidas de alma, princípios, valores morais e crenças, serenizando-os por meio de softwares antidepressivos, ansiolíticos, neurolépticos, estabilizadores de humor, que os tornarão, para a eternidade, dependentes do florescente e indômito cartel das indústrias de psicoativos virtuais.

novembro, 2018


Pontos de partida, para quem desejar pesquisar:

19 de novembro de 2018

Da savana!


De passagem por um canal de TV, vimos um fragmento de documentário sobre a Savana Africana.

Cenário: um calmo grupo de antílopes pastando, algumas aves voando, outras pousando em seus dorsos etc.

O narrador dizia:

- Nossos corajosos pesquisadores e cinegrafistas correram enormes riscos, para que você possa conhecer o perigoso antílope da savana.

Como assim, "o perigoso antílope"?

Ele é apenas "o antílope da savana"!

O sujeito não entende?

As pessoas são da cidade e o antílope é da sa-va-na!

Os habitantes da savana não o acham perigoso.

Ele somente se tornará perigoso, se o sujeito da cidade for à savana atormentá-lo, invadindo o seu espaço com jipes e equipes de cinegrafistas, ameaçando-o com teleobjetivas, microfones e sabe-se lá mais o quê.

Se o pacato antílope da savana pudesse ir à cidade e adentrasse a residência de um desses pesquisadores, certamente o pobre infeliz conheceria o perigoso sujeito da cidade, de arma em punho, pronto a defender seu território.


11.fev.2012

14 de novembro de 2018

Chega de tanto "eu"


Diante de incontáveis legiões
de enfermos, famintos, miseráveis,
surtados, viciados, discriminados, injustiçados,
agredidos, explorados, perseguidos,
expulsos de seus lares pelas guerras e pelo crime,
desabrigados, abandonados, desalentados,
todos, como nós,
passageiros desta Nave Mãe abençoada...

Chega de "eu sofri".
Chega de "eu sinto".
Chega de autocomiseração!

Chega de "eu preciso".
Chega de "eu mereço".
Chega de "eu quero".
Chega de irrelevâncias!

Cabe somente gratidão pela ventura de sermos quem somos,  
pela ajuda e pelos benefícios recebidos deste e de outros planos,
ao longo desta vida.

Os privilégios do ser e do ter
trazem o dever moral de mover continuamente
pensamentos, intenções, palavras, atitudes e ações,
para levar alguma forma de caridade aliviadora
a quaisquer dos nossos irmãos necessitados,
humanos ou sencientes.

Fora da caridade, não existe salvação.

mar.2018

8 de novembro de 2018

Marcas


Ainda posso tocá-las, 
ler e reler o Braille energético
de suas histórias.

Marcas imemoriais,
as que mostrei e as que jamais revelei,
em meu corpo, minha mente,
meu coração, meu espírito.

Sobre cada uma delas,
colei remendos de aprendizado.

Sobre as de ira, escrevi "mansidão",
sobre as de inconformismo, escrevi "compreensão",
sobre as de mágoa, escrevi "perdão",
sobre as de decepção, escrevi "paciência",
sobre as de dor, escrevi "resiliência".

out.2018 - nov.2018